23/09/07

Sobre a crítica literária

A tentativa de manter semanalmente neste espaço,* ao longo dos anos, o enfoque crítico de obras recém publicadas tem propiciado a manifestação de leitores que, em forma de observações escritas, estabelecem um produtivo diálogo. Algumas vezes, sugerem a abordagem de temas ou apresentam questionamentos. Uma sugestão interessante, agora seguida, acena para a necessidade de intercalar o exame de obras com discussões em torno desta atividade. Imagina o leitor que uma reflexão em torno do exercício da crítica pode dar mais credibilidade ao trabalho, além de dividir com o público interessado as preocupações e pressupostos que norteiam tais intervenções.
Comecemos então pelo princípio, fazendo um histórico incompleto da atividade chamada crítica literária. Esta palavra, em nossa língua, está vinculada aos vocábulos gregos “krínein” (julgar), “krités”, (juiz) e “kriticós”, (censor de obras escritas). Tendo chegado até nós através da forma latina, os dicionários registram o substantivo “criticus”, com o significado de “crítico” ou de “censor de obras escritas”, conforme usado por Cícero na obra CARTAS FAMILIARES. No âmbito desta tradição, o termo “criticus” se aproximava de “gramaticus”, sem que se fizesse distinção entre a análise da obra escrita de natureza informativa ou técnico-científica e a da obra de arte literária propriamente dita. Observe-se que, ainda hoje, é comum se chamar de literária a toda obra de erudição escrita, ficando a Literatura sem uma designação própria. Tal acontece também com a expressão “letras” que, em muitos países, designa o labor intelectual através da escrita, ou mesmo, as ciências humanas. Daí as academias de letras reunirem não somente romancistas, poetas e outros criadores, mas todo escritor de livros, tratem eles do verdadeiro ou do verossímil. A distinção de Aristóteles entre a poética e a escrita erudita (como a História, tomada por ele como exemplo) não foi suficiente para demarcar as fronteiras.
O crítico, o gramático e o lógico, conforme se depreende de um correr de vistas por textos filosóficos antigos, medievais e neoclássicos, eram um só estudioso, versado na “arte de pensar” ou de escrever. Observe-se que o Renascimento e o Iluminismo deram continuidade a esta correlação. No século XVIII, Condillac desenvolveu a sua lógica imbricada com a gramática; no início do século XIX, Degérando publicou DOS SIGNOS E DA ARTE DE PENSAR. Esta mesma identificação era encontrada nas obras de Lock (1632-1704) e de Leibniz, seu contemporâneo e opositor crítico do empirismo inglês.
Na Inglaterra do século XVII é que aparece o moderno vocábulo “criticism”, forjado para distinguir a atividade crítica da pessoa que faz a crítica – “critric”.
Usado não somente para designar a leitura valorativa de obras literárias, o termo crítica foi tomado, na Alemanha, por Kant para caracterizar a sua análise filosófica (CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA, CRÍTICA DA RAZÃO PURA e CRÍTICA DO JUÍZO). É possível que o idealismo kantiano tenha contribuído para destacar o aspecto subjetivo da crítica; ou para demonstrar que quando o espírito se debruça sobre os objetos do mundo exterior, projeta sobre eles formas apriorísticas ditadas pela inteligência do sujeito cognoscente.
As idéias do filósofo servem de argumento para a crítica literária de natureza subjetiva, assim como para a posterior fixação, um século depois, da chamada crítica impressionista.
Convém destacar que a história da crítica toma como tal todo esforço teórico voltado para a compreensão e fixação do objeto literário, incluindo aí as famigeradas poéticas, que se multiplicaram no Renascimento, com a redescoberta de Aristóteles e dos clássicos. Mas, a rigor, muito daquilo que é catalogado como crítica literária pode ser visto como teoria ou como história da literatura.
Se a atividade crítica pressupõe a constituição de um cânone, ou de um conjunto de obras que servem de modelo e fornecem as regras para o julgamento de novas obras, o Renascimento instaurou a crítica neoclássica baseada na autoridade exemplar dos gregos e latinos.
Na França, a ARTE POÉTICA de Boileau serviu de sustentação para o pensamento estético clássico e de ponto de partida para uma postura crítica com relação às normas grego-latinas. Se, de um lado, teóricos e eruditos propunham os modelos antigos como referencial único para a construção artística, do outro lado, leitores e apreciadores dos escritores contemporâneos julgavam o novo fazer literário como sendo conseqüência do progresso científico e filosófico do homem.
Samuel Johnson, na Inglaterra, ao fazer a sua monumental edição crítica da obra de Shakespeare, firmou-se concomitantemente como filólogo e como crítico literário. O trabalho de editor crítico impunha-se não somente aos textos antigos mas também aos textos modernos, como os do grande poeta e dramaturgo. Crítica textual e crítica literária fundiam-se no trabalho de Johnson que, não apenas, interpretava a escrita shakespereana como também julgava os pontos que considerava mais ou menos expressivos. Johnson não se furtava de apontar os erros e os acertos do autor criticado.
Surgia, assim, nas últimas décadas do século XVII, a partir de discussões travadas na Inglaterra, na França e em outros países europeus, a “Querelle des anciens et des modernes”, que animou o Iluminismo e ganhou, ainda, novas dimensões no Romantismo. O pensamento romântico se sustentou na afirmação de novos valores, não mais baseados nos clássicos e sim no gosto e na prática dos povos europeus.
A construção de um novo cânone foi a novidade, entre outras ocasionadas pelo pensamento romântico, que propiciou o surgimento de uma crítica viva e atuante. Os alemães e os ingleses tiveram um importante papel na afirmação de um juízo de valores fundado no gosto popular, onde a emoção e a imaginação desencadeada pela fluidez dos sentimentos ganharam o estatuto de elementos constituintes do fazer artístico. Com a valorização dos antigos elementos identitários da nacionalidade, estes povos conseguiram elevar as tradições populares da sua cultura ao nível do apreço com que sempre foram distinguidos os clássicos da cultura de base greco-latina.
É esta similar tendência de reposição da cultura popular no centro de gravitação da atividade criadora que reaparece na contemporaneidade, notadamente a partir do influxo trazido pelos Estudos Culturais iniciados, igualmente, na Inglaterra, o mesmo país que serviu de berço do cânone romântico, com suas raízes populares. Ironicamente, no Brasil, a desconstrução do cânone erudito, em favor da cultura popular, propicia a crise da crítica literária, pelo menos no âmbito acadêmico representado pelos congressos da maior sociedade universitária de literatura, a ABRALIC.

* Cid Seixas. Sobre a crítica literária. Coluna "Leitura crítica" do jornal A Tarde, Salvador, 27 set. 1997, p. 7.