21/11/2015

Hollywood

LEITURA CRÍTICA ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Cid Seixas


Hollywood é aqui

Gabriel Zide Neto é um jovem escritor que fez sua estreia como contista em 1993 com O segundo par de olhos. É tradutor e roteirista. Seu mais novo livro, o romance Círculo de fogo, publicado pela Record, pouco denuncia a escrita de um principiante. O texto parece seguir a receita dos bem sucedidos best-sellers do mercado editorial: objetividade, clareza e poder de reunir uma história cheia de peripécias a algumas situações e observações inteligentes. Estas últimas, são destinadas ao leitor mais bem formado.
A oficina de textos deste escritor, que se exercita nos domínios do conto, do romance e do roteiro, denota estar sustentada na observação da técnica de escritores experientes. Tradutor do alemão e do inglês, Gabriel Zide Neto demonstra suficiente talento para usar os trabalhos de tradução como laboratório de aprendizagem e experiência dos seus próprios processos de construção e fabulação.
Sabemos que traduzir é recriar uma obra numa outra língua, é dividir com o autor a tarefa de reescrever o texto e valorizar as tramas engendradas. Deste modo, o escritor encontra na tradução um excelente material para aperfeiçoar seus recursos de escrita.
Duas escolas informais e eficientes têm, ao longo dos anos, aberto suas portas para os escritores: o jornalismo e a tradução.
Na primeira, aprende-se a procurar a clareza e a substituir (ou a fingir substituir) as razões do sujeito que escreve pelo universo do possível leitor. Manter a atenção e o interesse de quem lê, facilitando a compreensão do texto, são as exigências iniciais. Aparentemente, isto é pouco. Mas, se considerarmos que o sujeito que se imagina artista tem um ego maior do que universo, veremos de saída que o narcisismo prende o autor aos limites do seu próprio mundo. Muitos artistas se recusam a fazer qualquer concessão ao receptor do seu trabalho, partindo do pressuposto segundo o qual as descobertas e maravilhas do seu universo enriquecerão o pequeno e obscuro mundo dos outros.
Esta atitude, às vezes, natural e necessária ao ímpeto criador tende a se exacerbar e levar o artista ao isolamento. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o romantismo, movimento literário que, pela supervalorização do sujeito, estimulou ainda mais o cultivo da individualidade. Qualquer incapacidade de adequação do sujeito ao meio podia ser tomada pelo inadaptado como sinal de superioridade. Tal convicção estimulava ainda mais a distância entre o eu do artista excêntrico e entediante mundo dos outros.
A esta altura o leitor estará se perguntando: qualquer semelhança com a paranóia será mera coincidência?
Foi o mesmo século XIX, pródigo em estimular a criação de personalidades ímpares, que, pressentindo a transformação da república das artes numa cidade cheia de becos sem saída, tomou a despersonalização como pedra de toque da modernidade.
Juntemos o que foi dito. A partir da segunda metade do nosso século processou-se uma revolução na técnica de escrita jornalística, onde a objetividade, entendida como suspensão das razões do sujeito e observação da lógica do outro, visa assegurar a compreensão do se tinha a dizer. O mesmo movimento de despersonalização que propiciou a modernidade literária chegou ao jornalismo. Assim, a aceitação de uma estratégia para atender a uma exigência do mercado de trabalho possibilitou a alguns destes profissionais a construção de um estilo literário moderno.
Assim como o jornalismo foi uma escola para muitos escritores aperfeiçoarem os seus recursos, a tradução também tem sido. Com uma vantagem adicional: se o tradutor trabalha sobre obras literárias de escritores experientes, a análise dos processos de construção que implicitamente precede o ato de traduzir permite ao tradutor assimilar com frieza e objetividade um turbilhão de eventos marcados pela luta entre a emoção e a razão.
Aprender criando o próprio texto implica num envolvimento tal do autor que poucos conseguem emergir deste mar de dentro. Aprender recriando sobre um texto alheio agudiza o senso crítico e facilita bastante a procura dos melhores caminhos expressivos.
Ao ler o texto de Gabriel Zide Neto, são estas observações que vêm à mente para explicar o modo natural, à vontade, com que ele transforma em linguagem escrita a sucessão de fatos e intrigas que constituem a trama de Círculo de fogo.
Bem verdade que algumas situações são demasiadamente hollywoodeanas; algumas peripécias ultrapassam os limites da verossimilhança exigida pelo leitor de boa litreratura. Como os consumidores das maravilhas de Hollywood incluem no verossímil situações mirabolantes que pareceriam demasiadamente oníricas para a realidade da prosa de ficção, uma distância separa o real ficcional da literatura do real ficcional dos roteiros cinematográficos e televisivos.
No texto literário feito para ficar, menos espuma e mais corpo a corpo com as palavras é uma boa receita. Se o autor de Círculo de fogo desejar sair do universo dos livros de consumo bem escritos para o pequeno mundo da boa literatura, já está qualificado para isso. Porque ele sabe escrever e contar uma boa história.

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Hollywood é aqui. Artigo crítico sobre o livro Círculo de Fogo, de Gabriel Zide Neto. Coluna “Leitura Crítica” do jornal A Tarde, Salvador, 26 mai. 97, p. 7.

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